Parte VI
 Merci beaucoup, Olé!!!... Ainda no embalo dos febris anos cinqüentas
“A música negra do Sul (dos EUA), a música branca do Sul, nós a juntamos e criamos a Sun Records (em Memphis, Tennessee) com Elvis como catalisador ao lado daqueles incríveis cantores negros que gravávamos anteriormente. Isto mudou o Mundo e o conceito, não só de música, mas de como vemos nosso semelhante.” - Samuel Cornelius Phillips, o Sam Phillips (1923-2003), locutor e produtor de rádio. Fundador da Sun Records, e um dos primeiros investidores da gigantesca rede de hotéis (motéis) Holliday Inn. Creditam-lhe o “descobrimento” de Elvis Presley.
 

Ensangüentados, deixamos o quinto capítulo graças ao passatempo número um do bicho-homem (e mulher): a imediata descarnadura de seu próximo (acrescentem na lista: todos os outros animais, os insetos, as plantas, enfim, o meio ambiente) e o seu ulterior aniquilamento.

Vou contar um segredo. Em verdade, o Rock and Roll – para os íntimos, simplesmente Rock – veio para salvar... Não, desculpem! Para paliar (atenuar) os sofrimentos e tristezas do inevitável e “holocáustico” (Mais que merecido!!!) fim de nossa emética espécie. É isso aí!

 
 

A inacabável Década de Cinqüenta

Em seu primeiro qüinqüênio, o Rock vai dando o ar de sua graça, torna-se popularíssimo nos Estados Unidos e, como um raio, se espalha pelo resto do Mundo. Deixara de ser apenas um coadjuvante da Race Music (Black Rhythm and Blues), do Jazz, do Blues, do Country ou das Big Bands. Nessa ocasião, os cantores afro-americanos de Doo Wop também são muito populares, causando frisson e histeria nas massas.

Doo Wop ou “Group Vocal Harmony”

Fenômeno que remonta aos decênios de trinta e quarenta e procede dos apinhados formigueiros norte-americanos de: Chicago, Los Angeles, Newark, New York, Philadelphia etc. Quatro ou cinco rapazes reúnem-se, combinam a vocalização apelatória e emocionada do Gospel com o efusivo balanço do Rhythm and Blues, postam na dianteira um cantor principal (normalmente um tenor), criam sons (sílabas estrambóticas e sem sentido, imitando instrumentos musicais que não têm grana para adquirir), ensaiam e correm para as esquinas de quarteirão, rezando pelo aparecimento de qualquer “caçador-de-talento”.

O apelo sentimental e humorístico dos intérpretes de Doo Wop contribui, à larga, para a formação de caráter do recém-nascido Rock and Roll. A incorporação de frases, como: “Bop-bop”, “Dip-dip”, “Bomp-a-bomp-bomp-bomp”, “Buh-dang-a-dang-dang”, “Wah wah, shoop shoop”, “Dooby dooby-doo”, “Yip-yip-yip…”, incontestavelmente, atrai a curiosidade do grande público.

Torna-se a forma mais popular de música afro-americana no ocaso dos anos cinqüentas. As letras são uma “baboseira só”, “adolescentemente” românticas, puras “mela-cuecas”... “Love prá cá, love prá lá”! Aaaahhh, O Amor!!! Quão sublime entrançamento de fluidos concupiscentes! Que maravilhosa floresta de recônditos desejos! Que espetacular zoológico sonoro! Fiu-fiu! Ih,ih,ih, chuac, smack, mmmmm! Muuuuu! Miauuu! Iónnn, iónnn! Ai, aaaiiiii! Yyyyeeesssss, yes! Ops… Foi sem querer! Arf, arf, arf, arf, arf, e, arf… Cocoricóoo… Triiimmm... Aaaargh!!!

Amor. S.m. Insanidade temporária curável pelo casamento ou pela remoção do paciente da influência causadora da moléstia. Essa doença, qual a cárie e muitas outras, prevalece só em raças civilizadas, vivendo sob condições artificiais; nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes a sua devastação” – Ambrose Gwinett Bierce (1842-1914).

Na paz universal somente o amor faz guerras, é o único tirano a quem não resistimos” – Voltaire (1694-1778), em Zadig ou O Destino.

Quando o amor nos visita, a amizade se despede” – Marquês de Maricá (1773-1848).

De volta ao Doo Wop, são trombeteados como seus ancestrais os conjuntos vocais “pop”: The Mills Brothers e The Ink Spots . Naquele tempo, cada etnia de bicho-gente dispõe de sua própria parada de sucesso.

Em 1948, The Orioles – já adicionando o espírito Rhythm and Blues – alcança a primeira colocação dentre os “hits” deste gênero musical com a canção: “Its too soon to know”, e o décimo terceiro lugar nos “pop charts”, até então, dominados por artistas euroamericanos. O vinil de “Its too soon to know” vende 30 mil cópias imediatamente. É considerado por alguns “experts” como o primeiro disco de Rhythm and Blues e de Rock and Roll (?!?!?!?!). Vários grupos seguem-lhe a linha: “ The Ravens” (Os Corvos), “The Clovers”, “The Cardinals” (Os Cardeais), “The Larks” (As Cotovias), “The Crows” (Os Corvos, também), “The Penguins” (Recuso-me a traduzir!), “The El-Dorados”, “The Turbans”, “The Flamingos” (Continuo intolerante!), “The Robins” (Os Papos-Roxos, alguém conhece?!), “The Swallows” (As Andorinhas), “The Pelicans” (Seria um desaforo ante a inteligência de nossos leitores!!!), “The Swans” (Os Cisnes), “The Wrens” (As Cambaxirras, Minha Nossa o que é isso!), “The Sparrows” (Os Pardais). Todos emissores de uma brilhante, mas efêmera carreira. E “chegados” num alpiste!

Em 1953, com a ajuda - dele, de novo! – do “disc jockey” Alan Freed, o Doo Wop encontra uma resposta acolhedora das audiências homo sapiens alviamericanas. Dentro dos mesmos 365 dias (ou 366), os papa-figos do The Orioles emplacam outro hit: “Crying in the Chapel”, que se gruda na décima quarta posição da parada de música popular.

The Platters é aquele conjunto que antecede os demais a atingir um sucesso extenso e duradoiro. O suporte da megagravadora Mercury arremessa ao topo: “Only You” e “The Great Pretender” (1955) e mais dezoito hits no rol das “Top-40” no anode 1960.
Há espaço para menção honrosa a outros importantes representantes de Doo Wop: “The Moonglows”; “The Coasters” (brilhantemente auxiliados pelos compositores Jerry Lieber e Mike Stoller); “Frankie Lymon & The Teenagers”. Este tal de Frankie – um adolescente de 13 anos de idade – abriria caminho para uma leva de “stars infantis” na qual sobressairia o “Forever Young ‘Muso’ dos Baixinhos”: Michael Jackson.

Até a “British Invasion” de 1964 (que veremos adiante), o Doo Wop resiste, e com variações, como a dos grupos ítalo-americanos “Dion & The Belmonts” e “The Mystics”.


Tin Pan Alley

Termo que se aplica ao conglomerado de compositores e editores musicais de New York que dominaram o cenário pop norte-americano desde o último quarto do século XIX até meado do XX.

Seus profissionais deixaram marcas melódicas e harmônicas profundas no gênero que chegava para dominar o Planeta: Rock and Roll.

Tin Pan Alley, por muito tempo, serviu como sinônimo de lugar em que haja uma considerável (e importante) concentração de lojas de instrumentos musicais e de escritórios empresariais do mesmo ramo de negócio.

 

Os Quatro Cavaleiros do RockApocalipse : Charles Edward Anderson Berry, Richard Wayne Penniman, Elvis Aaron Presley & Jerry Lee Lewis - parte I

Os carinhas aí de cima, sulistas norte-americanos, citados por ordem de nascimento, fizeram do universo convivente humano um sítio aturável com sua música e legado.

Charles, ou Chuck Berry (1926-...), natural de Saint Louis (Missouri), sobremaneira afetado por Muddy Waters, pelo Blues e pelo Country & Western Music transforma a guitarra elétrica no centro de atenção; até ali, ela se acotovelava com os outros instrumentos na rabeira ou na lateral. Chuck, anormalmente carismático, pula para a dianteira do palco numa época em que os demais afrodescendentes de Rhythm and Blues, timidamente, continham-se em suas apresentações ao vivo. Dizem até, que Chuck teria sido o precursor das letras sarcásticas. O cara é um sarro mesmo! Tem um show (em vídeo preto-e-branco) em que, nobremente, ele apresenta: o genial compositor alemão Ludwig Van Beethoven (1770-1827), agradece ao público em francês: “Merci beaucoup”, e termina a música com um apoteótico: “Olé!”. Isto num caretíssimo programinha de televisão. A música, claro, só podia ser “Rock over Beethoven”.
Caso ele não tenha copiado de algum desconhecido, o famoso “passo de ganso” (ou “do pato”, tão difundido por Angus Young, AC/DC) é de sua autoria.

Qual Elvis, junta elementos do Rhythm and Blues e do Country & Western, aplica-lhes altas doses de pura adrenalina, irreverência, inconformismo, emoção e... SHAZAM, está criado, “oficialmente”, o Rock and Roll !!!
Segue para Chicago no ano de 1955, onde é acolhido pela Chess Records. Imediatamente sua “Maybellene” atinge as principais colocações de venda.
Excursiona pelos Estados Unidos (1957) e pela Grã-Bretanha. Sua fama se consolida com o auxílio das primeiras películas cinematográficas sobre juventude transviada e Rock. Até Marlon Brando acabaria por entrar na brincadeira. Não sei o nome dos títulos em português (Aliás, admiro – obstupidamente - a capacidade imagética daquelas pessoas responsáveis por titular, traduzir, os filmes estrangeiros no Brasil!); ei-los: “Rock, Rock, Rock” (1956), também conta com a participação de Alan Freed; “You can’t catch me”; e “Go, Johnny, go” (1959), outra vez, aparece o Alan.
Chuck é acusado de aliciamento de jovens “indefesas e ingênuas”; tadinhas, quanta inocência!!! Vai em cana. É o período que transcorre entre o final de 1959 até 1963. Sua prisão serve para macular a imagem do Rock and Roll... Grande novidade!!!


Como o Rock é um agente de longevidade, Chuck, ainda encontra-se “vivinho da silva”, e excursionando! Exerceu, ou melhor, exerce influência em todos os rockeiros de verdade. Seus sucessos são largamente “coverizados”, como: “Johnny B. Goode”, “Rock and Roll music”, “Sweet little sixteen”, “Little Queenie” e “Maybellene” (aqui, se nota a grande carga de Country Music em Chuck).

Estimados (as) leitores, eu sei que estão sedentos de mais aventuras roqueiras, porém, não quero estender sobremodo esse capítulo. Pretendo, no sétimo, falar dos outros três paladinos que, para mim, juntamente com Chuck, constituem-se nos: Quatro Cavaleiros do RockApocalipse!!!
   
História do Rock and Roll
Adriano Alves Fiore
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