E sem dúvida em nosso tempo o homem prefere a imagem à coisa, a cópia ao original, a representação à realidade, a aparência ao ser... Ele considera que a ilusão é sagrada, e a verdade é profana... E mais, aos seus olhos, o sagrado aumenta à medida que a verdade decresce e a ilusão cresce a tal ponto que, para ele, o cúmulo da ilusão fica sendo o cúmulo do sagrado (FEURBACH, Andreas IN: A Essência do Cristianismo).
imagem produzida em daguerreótipo (em 1842) por Carl Ferdinand Stezner e publicada no semanário inglês The Illustrated London News em sua primeira edição.
Há muito tempo que a exatidão das informações demonstradas em uma fotografia é questionada. Há o clássico exemplo da imagem produzida pelo alemão Carl Ferdinand Stelzner através de um daguerreótipo das conseqüências ruinosas do incêndio ocorrido em Hamburgo (Norte da Alemanha em 1842) para o semanário The Illustrated London News, que a desenhou a partir da original. O que prova que a tentativa de desvirtuar e/ou forjar o sentido provocado por uma imagem ou fotografia já se fazia presente muito antes da Era Digital.
Desde a invenção da fotografia que possibilidades de manipulação e de interferência existem e são largamente empregadas tanto por amadores como por profissionais da área. Alterações, de diversa ordem, podem modificar o realismo físico da natureza e das coisas retratadas, acrescentando ou excluindo detalhes. O produto final – a fotografia – encontra-se à mercê do trabalho de manipulação laboratorial do fotógrafo;
este dispõe de uma infinidade de recursos técnicos para realizar o registro de acordo com a sua intenção ou conforme o intento financiado por um patrocinador ou anunciante. As fotografias, além da manipulação de imagem, também tendem a ser “melhoradas” (como, por exemplo: na saturação de cores) pelo processo de: tratamento. A tecnologia atual permite aos fotógrafos - e a todos aqueles que trabalham com representações visuais de qualquer espécie - aperfeiçoar sensivelmente a qualidade de suas imagens.
As imagens midiáticas possuem um enorme poder conferido pela reprodutibilidade, alcançando uma penetração nunca sonhada anteriormente. Atingem um público cada vez maior (constituído de indivíduos nivelados por um repertório simples e superficial) e, de fácil persuasão.
No show business que envolve o gênero musical: Rock, sempre ocorreu artimanhas consabidas (e outras mantidas em segredo) visuais para atrair a atenção de púbico e de mídia.
Figura 1
capa de uma das edições da revista norte-americana Mind Alive
No âmbito da fotografia artística, cabe destacar a capa do disco (LP ou Long Play): Born Again (figura 3) da banda inglesa do Heavy Metal: Black Sabbath. A data de sua realização foi em 1983. Há um tempo considerável que a divulgação e a aceitação pelos fãs de um grupo do Rock dependem, excepcionalmente, da capacidade ilustrativa ou fotográfica de chocar visualmente. A circulação de LPs (ou “bolachões) entre as pessoas, passando de mão em mão, tinha uma importância vital para o sucesso dos artistas nas décadas de: 1950, 1960, 1970 e 1980 até o aparecimento do Compact Disc (CD).
O album cover do Born Again foi elaborado por Steve Joule, artista que já havia trabalhado com outros músicos em confecção de capas de discos. Naquela ocasião, quando foi contratado pelo Black Sabbath, ele se encontrava sobrecarregado com outros projetos e não pretendia levar adiante tal incumbência. Para provocar a desistência “natural” do pedido feito por Tony Iommi (guitarrista e líder do Black Sabbath), Joule confessa que desenvolveu a arte-final de qualquer maneira após uma noitada de bebedeira. Ele se baseou na capa do single do grupo inglês Depeche Mode, de 1981, intitulado: New Life (figura 2) que, por sua vez, tem origem na foto de frente de uma das edições da revista Mind Alive (pertencente à rede de televisão e rádio norte-americana CBS), em que aparece um bebê chorão (figura 1).
Figura 2
capa do singleNew Life (1981) do grupo inglês Depeche Mode
Figura 3
capa do disco Born Again (1983) da banda Black Sabbath
Steve Joule transformou o choroso neném em um recém-nascido Anticristo, conferindo-lhe garras, presas vampíricas, chifres e olhos reptilianos; a tudo isso acrescentou uma estranhíssima combinação de cores: roxa, vermelha, preta, verde e amarela. Tinha absoluta certeza na rejeição de seu esboço para o BornAgain.
A agressiva (e intrépida) capa foi aprovada por Iommi e Geezer Butler (baixista); foi severamente atacada por boa parte da crítica especializada em Música, mas amada pelos fãs do Black Sabbath. O disco atingiu o quarto lugar nas paradas de sucesso britânicas e adentrou nas “Top 40” estadunidenses.
A representação diabólica e/ou os elementos visuais usados para descrever a imagem do Diabo há muito vêm povoando o universo do Hard Rock e Heavy Metal. Mediante o processo de: desconstrução pode-se analisar as imagens, tirando conclusão sobre as verdadeiras intenções de comunicação daqueles que produzem fotografias e/ou desenhos. Estes possuem ferramentas de sobra (elementos de linguagem fotográfica) para produzir um sem-fim de leituras de uma mesma realidade. A mensagem fotográfica é composta de códigos abertos; ela não é, simplesmente, simbólica. As diversas leituras imagéticas provocam a “manipulação da realidade” e isto faz com que se tornem também um problema ético porque se adentram no campo da falsificação dos acontecimentos.
Na capa em questão, vê-se um plano fechado e contra-plongé que dá destaque e um ar de importância ao infernal nenêzinho. O enquadramento é de plano americano. A manipulação (tanto técnica como interpretativa) e o tratamento de imagem fazem-se firmemente presentes. O fundo de coloração arroxeada realça ainda mais a figura avermelhada. A posição do rosto e a disposição dos braços e mãos reforçam a idéia de movimento e ação (dinamismo).